A ampliação do catálogo da Editora Maurício de Sousa para além dos quadrinhos infantis e juvenis parece estar sendo bem recebida por todos os lados, o que não é de se espantar, uma vez que temos mais de meio século do recorrente relato “os gibis da Turma da Mônica foram um dos meios pelo qual me alfabetizei”. Das tirinhas de jornais, passando pelos mais clássicos gibis da infância e tantos outros produtos de sucesso da marca, chegamos ao selo Graphic MSP que nos trouxe em seu 16º título o Capitão Feio, o temível vilão do bairro do Limoeiro.

 

Uma origem para o Capitão Feio

Em uma bela apresentação editorial, Identidade, traz a história de um jovem em crise que passa a viver escondido em esgotos e lixões, enquanto tenta descobrir a origem e motivos de possuir de estranhos poderes. Capaz de voar, soltar feixes de fumaça e sujeira e até dar vida à pilhas de lixo, vive renegado em uma sociedade que aparentemente o renegou. Em uma história simples e direta, vemos  o que parece ser a primeira parte da origem do Capitão Feio.

Nosso personagem, até então, sem codinome ou nome próprio, não parece se adequar ao mundo, visto como sujo, mendigo, monstruoso, é atacado mesmo quando salva uma criança de um acidente. O que ele não percebe é que para salvar a criança, ele cria outro grande acidente tombando um ônibus. Exposto à sua contradição ele se irrita e ataca as pessoas ao seu redor. Seu comportamento perigoso atrai a atenção das autoridades, em especial de um dos chefes do departamento de segurança pública, o Dr. Olimpo, outro clássico personagem dos gibis, que tinha em sua principal “vilania” tentar molhar o Cascão.

Com a confusão armada, incluindo helicóptero da polícia com atiradores em seu encalço, o protagonista enfurecido cria e dá vida à um imenso Monstro de Lixo, com aparência à Monstro do Pântano, e comportamento de Godzilla, o Monstro, sob suas ordens, começa a atacar pessoas e destruir prédios até o ponto de criar autonomia e atacar, inclusive, seu criador que precisa, então, lutar contra seu Monstro criatura e destruí-lo. Uma realização externalizada do conflito interno do protagonista.

A derrota da criatura de lixo deixa o personagem sujo à mercê de forças policiais de elite que, assim como os jornais e população já faziam, o chamam de Feio, irritando-o ainda mais. Nesse momento, poucos antes de fugir para seus esconderijos no esgoto e começar a criar seu exército de pequenas criaturas de lixo, com as mãos sujas de chorume desenha uma grande letra F no peito, afirmando que não é apenas feio, mas o Capitão Feio.

Uma grande leitura

Ler a história de, provavelmente, o primeiro vilão que tenho memória de ter lido foi uma alegria e tanto, ainda mais em uma história tão profunda em suas camadas, apesar de simples. Uma bela escrita, aliada à um lindo e cuidadoso desenho são responsabilidades dos gêmeos Magno Costa e Marcelo Costa, vencedores do prêmio HQ Mix em 2012 na categoria Novo Talento.

Crescer com gibis, séries e filmes internacionais me criou certa indiferença em ver Tóquio, Nova Iorque ou Los Angeles ser destruída tantas vezes, não conhecia nenhum daqueles lugares, mal sabia onde ficavam, se é que ficavam em algum lugar que não nas telas e quadrinhos, mas ver o Capitão Feio destruir e sujar – ainda mais – São Paulo me criou um mal-estar novo e diferente. Me vi irritado com as atitudes do vilão, e senti, o que nunca tinha sentido com nenhum Doutor Destino em seu alto trono na Latvéria.

A narrativa vai além do mero acompanhar do Feio, no melhor estilo Cavaleiro das Trevas, muitas das informações nos são transmitidas pela mídia, pelas chamadas dos canais de notícias, e programas de fofocas, mas também por vídeos e correntes retransmitidas pelos famosos grupos de mensagens nos smartphones.

Outro ponto positivo vai para os diversos easter-eggs espalhados pelas páginas, de clássicos internacionais como Star Wars e Maus aos nossos caros Chiclete com Banana e Laerte, passando inclusive pelas queridas latas de molho de tomate do Jotalhão. Além de ícones da cultura pop, os amantes da aviação também se sentem contemplados com um belo, clássico e reconhecível Boeing 737, também temos os – em breve por aqui disponíveis – caças SAAB Gripen.

Capitão Feio – Identidade é um ótimo quadrinho e espero que a continuação não demore a sair.

Henrique Castro (ou Kpeta) é nerd e gosta de contar piadas, causos e trocadilhos, é psicólogo e professor, mas queria ser piloto de avião, rockstar e ter um podcast de ciências.