13 razões para aceitar a opinião alheia.

COM SPOILERS

A primeira coisa que notei ao começar a assistir 13 Reasons Why foi a semelhança com o jogo Life is Strange, da Square Enix. A trilha sonora calma, meio indie, meio folk … aquela que é ideal pra ouvir com a cabeça encostada na janela do carro enquanto chove lá fora e você finge que sua vida é filme, sabe?

A semelhança do tema central é algo indiscutível. Adolescentes que sofrem bullying em suas próprias escolas, o amor não correspondido, a indiferença dos adultos que acabaram se esquecendo de que um dia tiveram 16 anos e o suicídio como única saída disponível.

Muitas razões para assistir

13 Reasons Why foi baseada num livro de mesmo nome, do autor Jay Asher e conta a história póstuma de Hanna Baker (Katherine Langford), que corta os pulsos e espera pela morte numa banheira porque não enxergava outra saída. Hanna gravou 7 fitas (13 lados no total) com mensagens destinadas àqueles que a humilharam, ignoraram, machucaram. Àqueles que a levaram à morte.

O espectador é representado por Clay Jensen (Dylan Minnette), o real protagonista da série. Ele recebe as fitas e as escuta muito lentamente durante os treze episódios, revivendo certos momentos em locais específicos cuidadosamente marcados num mapa por Hanna.

Aqui preciso pontuar minha primeira opinião pessoal

Não me incomodei com a demora de Clay em ouvir as fitas, como muitos críticos comentaram. Acredito que levaria um tempo considerável também, levando em conta que era algo muito pessoal e traumático.

Veja, Clay era apaixonado por Hanna. Ele recebe as fitas e fica ciente de que se ele está ouvindo aquilo, ele é um dos 13 porquês da morte dela. Você conseguiria ouvir tudo numa noite?

Aliás, já vou deixar aqui todas as minhas opiniões pessoais. Vamos resolver isso de uma vez.

Minhas opiniões sobre o tema

Concordo em partes com a opinião de alguns colegas críticos sobre o embelezamento da vingança. Deixar as fitas apontando todos os erros dos envolvidos pode dar uma idéia errada à pessoas que estejam considerando o suicídio. Contudo, sem as fitas nunca saberíamos as atrocidades que eram cometidas entre aquele grupo de pessoas.

A solução? E se as fitas fossem uma espécie de diário pessoal que por acaso são encontradas por Clay? Acho que resolveria a questão da vingança de uma maneira honesta sem prejudicar o roteiro. Claro que estamos falando de uma adaptação e não posso dizer com mais propriedade pois não li o livro.

Minha terceira opinião (e mais polêmica) será revelada com muita cautela neste texto, então, se você se sentir ofendido, considere ler mais uma vez.

Pessoas com depressão existem aos montes e as vezes seu amigo mais próximo pode sofrer desta doença e nunca ter te falado. Pessoas alegres e ativas em redes sociais podem estar escondendo a tristeza por trás da mascara do dia-a-dia porque é simplesmente muito difícil ser levado a sério quando o assunto é uma “tristeza crônica”.

“É só ficar feliz, ué”
“Pense em coisas alegres!”
“Vai trabalhar, se distrair”

São algumas das coisas que nós iremos ouvir ao menos uma vez. Dito isso, quero dizer que não condeno nenhum caso de suicídio. Presta atenção: eu não estou incentivando a prática, mas quero explicar minha opinião.

Você não está sozinho nessa

Existem ONGs, principalmente na Europa, que se destinam a ajudar pessoas que estão sofrendo por x motivos e querem apenas parar. Parar de sofrer, de sentir. Há todo um acompanhamento de meses com o paciente e é um procedimento legalizado em alguns lugares.

O suicídio é uma decisão muito individual, que é diferente de egoísmo. Você já tentou viver a vida de outra pessoa? Sabe o peso que ela carrega nos ombros? Aquele dia em que tudo deu errado pra você, pode te deixar chateado ou emburrado, mas pode ser angustiante para outra pessoa.

Em outras palavras, eu jamais irei julgar alguém que comete suicídio. Ninguém nunca poderá dizer com certeza se as coisas iriam melhorar com o tempo, se ela seria feliz um dia, se ela estava apenas cansada … enfim.

Mas vamos voltar à história, agora com spoilers.

Todo mundo tinha toca fitas em casa?

Na lista das 13 situações que fizeram Hanna se matar (sim, são 13 situações e não 13 pessoas, pois Justin (Brandon Flynn) tem duas fitas), eu não concordo que todas foram tão graves.

A fita da Sheri (Ajiona Alexus)  por exemplo é uma das mais fracas, com aquela história um pouco maluca da placa de trânsito. Acho pouco provável que a falta dela tenha feito que Jeff (Brandon Larracuentebatesse o carro e morresse. Sheri foi uma má amiga quando deixou Hanna no meio da rua, óbvio. Mas acho um motivo bobo comparado a tantos outros.

A fita do Clay, apesar de muito emocionante, me pareceu muito deslocada como número 11. Por ser a única fita que não culpava o locutor e sim a própria Hanna, seria mais apropriado (e mil vezes mais emocionante) se Clay a recebesse no final das outras fitas, como algo secreto, destinado somente a ele.

As fitas da Jessica (Alisha Boe) e do Alex (Miles Heizerparecem importantes no começo, mas como ela é capaz de culpar uma menina que passou pelo mesmo trauma que ela mesma, nas mãos do mesmo cara? Jessica e Hanna foram estupradas por Bryce (Justin Prentice) e esses dois motivos são destoantes demais dos outros.

Claro, o conjunto todo de humilhações, difamações e amizades falsas quebrou Hanna por completo e quando você percebe que tudo aconteceu num período bem curto de tempo, é realmente sufocante.

Um dos motivos mais angustiantes pra mim foi o último. Hanna resolve dar uma última chance à vida e recorre ao Sr Porter (Derek Luke), conselheiro da escola. O descaso com que ele trata ela, insinuando que ela estava inventando tudo por ter se arrependido depois de ficar com Bryce por escolha própria só demonstra como a opinião feminina é geralmente ignorada.

Claro, ela é uma garota. O mais provável é que ela estivesse ciente do que estava fazendo, mas mudou de idéia na hora H. E o que o garoto pode fazer neste caso senão exigir o que foi supostamente prometido, certo?

Pois é, pobre garoto.
Agora inverta os papéis. Temos um garoto que desistiu na hora H e foi forçado por uma menina. Pobre garoto, né?

Onde estavam os adultos?

Felizmente não vi nenhuma crítica culpando os pais de Hanna, afinal eles tinham tanta culpa quanto você, espectador. Eles não perceberam algo diferente nela pois não havia algo diferente a ser percebido. Clay estava agindo de uma forma muito mais estranha em casa do que Hanna.

A atuação de Kate Walsh está excelente como sempre e a reação dela ao encontrar Hanna na banheira é digna de compaixão. A performance que menos me cativou foi a de Tony (Christian Navarro) que parecia estar lendo o roteiro em todas as cenas e não emociona nem quando descreve a morte de Hanna.

A cena em questão

A fatídica cena, tão comentada nas redes sociais foi um movimento ousado dos produtores e da Netflix. Mostrar com detalhes o suicídio de uma adolescente realmente foi uma atitude inesperada.

Eu gosto de atitudes inesperadas, gosto de ser surpreendida então achei muito interessante a decisão de incluir a cena. E palmas para a atriz, que conseguiu passar o sentimento de desespero, medo, angústia enquanto corta os pulsos com uma navalha. A respiração dela nesse momento específico foi muito convincente.

E nosso veredito é:

Nota: 8/10

Confesso que me distraí em alguns momentos da série lá pela metade. Nem todos os motivos parecem importantes ao olhos do espectador saudável, que não sofre de nenhum nível de depressão e todos os adultos parecem já terem se esquecido da fase adolescente. O público alvo da série é um pouco restrito e poderia ter sido um pouco mais abrangente.

No mais, é outro acerto da Netflix e vale a maratona!

Criadora do Yada Yada, produtora de conteúdo, youtuber, podcaster. Fã do mundo do entretenimento nerd desde adolescente, tem como hobbies os filmes, seriados, livros e jogos. Sempre perde a cabeça com as promoções da Steam e é especialista em ficar pistola a qualquer momento do dia.