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O banho de sangue de O Justiceiro cansa e não se justifica

Destaque no início do segundo episódio, a Estátua da Liberdade, representa o que há de mais importante na terra e lar dos livres e corajosos, mas, como dizem, curiosamente ela nunca realmente chegou aos Estados Unidos. Ficou ali, bem próxima, à vista de todos, servindo de enfeite e local de turismo, mas eternamente fora do território norte-americano. Assim também é O Justiceiro da Netflix.

Os primeiros três ótimos episódios abrem a narrativa e apontam que a violência presente será trazida debatida (leia as impressões sobre os primeiros episódios), os crimes julgados, a corrupção punida, a problemática da posse de armas aprofundada, e os traumas de guerra discutidos, mas não é isso que nos é mostrado.

Frank Castle, O Justiceiro (Jon Bernthal) se une à David Lieberman, o Micro (Ebon Moss-Bachrach) não sem uma longa sessão de tortura para provar que Micro é confiável e possui interesse compatível, e agora está pronto para iniciar seu plano de vingança “com todos mortos, sem julgamentos e toda essa merda” à todos que julga responsáveis pela morte de sua família.

Ao longo de cinco ou seis longos episódios vemos a trama ser apresentada. Soldados, Oficiais e agentes de Inteligência de diversas agências usaram os corpos de soldados mortos na guerra como esconderijo para tráfico de heroína do Afeganistão para os Estados Unidos. Um dos soldados que não concordava com o que acontecia faz e vaza um vídeo. David é quem recebe e divulga o arquivo e, por conta disso, é perseguido e baleado, mas consegue sobreviver e escondido monta uma central tecnológica de dar inveja à inteligência do governo. Onde consegue dinheiro para tantos equipamentos e um ano de contas de energia e internet é um mistério.

O promissor grupo de apoio de Curtis é reduzido ao drama de Lewis Walcott (Daniel Webber) jovem perturbado que cai no papo de O’Connor (Delaney Williams) e agora panfletam na porta do Fórum pelo aprofundamento da Segunda Emenda que garanta o livre uso de armas para defesa dos valores tradicionais do país. Ao ser interpelado e levado por um policial e abandonado por O’Connor, Lewis perde o resto de controle de sua sanidade, mata seu breve mentor, constrói elaboradas bombas e realiza uma série de atentados na cidade de Nova Iorque.

Um grande acontecimento que poderia ter trazido uma reflexão razoável sobre o sofrimento e abandono dos veteranos que retornam ao país, que é resolvido de forma moralista, culpabilizando uma fraqueza do indivíduo como causa de todos seus problemas, o que é reforçado em um diálogo que ele tem com Castle que acusa-o de covardia, uma vez quem nem todos os que sofrem fazem o que ele fez. O mesmo discurso raso sem compromisso que ouvimos todos os dias pela mídias e governos que precisam se eximir das responsabilidades que também possuem.

Mídia que não é ignorada na trama, trás novamente Karen Page (Deborah Ann Woll) como a jornalista forte e que se posiciona pelas armas, defende mais uma vez o justiçamento, mas também discursa contra a covardia do terrorismo. Assim como senador anti-armas que aparece apenas para contratar a altamente militarizada Anvil e mostrar a contradição de seus ideais.

O terço final da série é uma ode ao derramamento de sangue. A violência é explícita e constante. As execuções em primeiro plano retornam, assim como longas torturas. O mirabolante plano de Castle para salvar, o agora amigo, Micro e incriminar Russo e o alto nome da CIA e cérebro de todas as operações Rawlins (Paul Schulze), o caricato vilão de James Bond com direito à cicatrizes e olho de vidro, é improvável e dá à série o tom cartunesco que ela ainda não possuía, na medida em que o protagonista vai apanhar até quase à morte e no respiro final virar o jogo.

Home (Lar) o penúltimo episódio é, talvez, o mais controverso de todos. Consigo ouvir urros de excitação, seguidos de socos no ar que muitas pessoas possam ter tido pela detalhada e demorada sessão de tortura que Russo e Rawlins conduzem à Castle. Contudo a violência não parece suficiente, em meio aos delírios que tem enquanto apanha a série faz um, no mínimo deselegante e de mau-gosto, pareamento entre tortura e sexo.

Castle tem visões que alternam a respiração profunda de seu algoz, com a respiração profunda de sua esposa durante uma transa. A cena é desnecessariamente longa e cansativa. Em seus delírios, após transar com a esposa, ela o convida para ir com ela para o lar, um convite para que ele entregue os pontos, morra e se una à família. Mas é no último momento que solta a mão da esposa, para poder assassinar seu algoz com suas próprias mãos, apertando e perfurando os dois olhos de Rawlins.

No último episódio temos o acerto de contas de Russo e Castle. Foram necessários 13 episódios para que um marine tivesse alguma reação de dor ao tomar um tiro. Russo grita e chora ao tomar um tiro na bochecha e arrancar com os dedos a bala que ficou presa em sua boca. Em mais uma grande exibição de violência Castle encerra o confronto esfregando o rosto de Russo em um espelho, dando assim a estética necessária para que Russo, em uma possível continuação, ser Retalho, um dos clássicos antagonistas de Castle nos quadrinhos.

Micro está de volta com a família, suas acusações de traição são retiradas e pode descansar em paz com a família. Madani consegue que seus superiores tirem todas acusações de Frank Castle. Marion James (Mary Elizabeth Mastrantonio) a cabeça da CIA que aparece durante toda a série como a pessoa incorruptível que busca a verdade, afirma, nos maiores moldes do Miniver de 1984, que uma nova narrativa será escrita, a CIA e o governo ficarão seguros, nada vazará e tudo continuará como sempre foi. Frank Castle não responderá à nenhum crime e ainda leva um envelope cheio de dinheiro para recomeçar a vida.

Sem nenhuma consequência toda caçada que O Justiceiro conduz é justificada. Todos crimes do governo e Forças Armadas são válidos desde que as instituições não sejam maculadas. Tudo continua como sempre foi. É como a Estátua da Liberdade que viajou tanto, ficou muito perto, mas nunca realmente chegou ao destino.

Em resumo Frank Castle, um psicopata sádico e calculista que tortura e mata em busca de vingança e um distorcido senso de justiçamento, mas que discursa contra a “covardia” do terrorismo é a caricatura de uma grande parcela da população (não só) norte-americana que provavelmente irá se deliciar nos longos e, muitas vezes, de mal gosto demonstrações de violência. É uma ótima produção, faz jus ao clima pesado dos quadrinhos de Castle, mas cansa e não chega à lugar nenhum que não um mero refestelamento da violência. Uma visão mais cartunesca e menos realista faria com que esses excessos talvez não acontecessem, mas assim, talvez, a série nem fosse produzida.

Henrique Castro (ou Kpta) é nerd e gosta de contar piadas, causos e trocadilhos, é psicólogo e professor, mas queria ser piloto de avião, rockstar e ter um podcast de ciências.
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